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maio 14, 2006

Artigo de Opinião - Who's Gonna Ride Your Wild Horses

Por Cícero Oliveira

Uma das características mais fascinantes das músicas do U2 e das letras, escritas em sua maioria, pelo Bono é o fato de, assim como acontece com a poesia, podermos interpretá-las de várias maneiras dependendo do nosso estado de espírito, do momento pelo qual passamos, enfim, da nossa capacidade cognitiva momentânea.
Vasculhando meus alfarrábios, encontrei uma interpretação que eu fiz, há alguns anos, de “Who’s Gonna Ride Your Wild Horses.” Não faço a menor idéia do meu estado de espírito na época e nem sei se hoje eu interpretaria a música da mesma maneira, porém, vou compartilhar com vocês o que eu escrevi na época, com uma edição atual. Vou tirar os “acho” porque é óbvio que o que está escrito não é nada mais do que a minha opinião, humilde.)

whosgonnaride2.jpg

Do baú:
Sempre que ouço “Who's gonna ride your wild horses” imagino um desabafo de alguém abandonado pela pessoa amada. ... é o ponto de vista de alguém que foi abandonado pela pessoa amada, pessoa esta que tinha um caráter muito forte, era muito determinada, com uma grande força de vontade, quase selvagem, instintiva, mas também inconstante.
Apesar dos bons momentos na relação, também houve muito conflito, muita frustração, mas parece que agora a pessoa abandonada já se sente mais conformada com a perda, talvez por ter a idéia de que foi abandonada por alguém que nunca será amada plenamente, daí a grande questão: “quem irá cavalgar os teus cavalos selvagens?” (Who's gonna ride your wild horses).

You're dangerous 'cos you're honest

You're dangerous, you don't know what you want

Well you left my heart empty as a vacant lot

For any spirit to haunt

O nosso abandonado fala sobre a pessoa amada, descreve-a. Terminando num tom ligeiramente acusatório.
Ela é perigosa porque é honesta, diz as coisas como realmente as vê e não de forma a agradar as pessoas, é uma sinceridade que pode magoar o que torna os relacionamentos com ela bastante perigosas porque nem todo o mundo quer ou está pronto para ouvir o que os outros pensam de si.
Como uma pessoa selvagem, ela também é indecisão. Na verdade, pode até não ser indecisão, mas a coragem para se contradizer, mudar de opinião ou partir em busca de novos objectivos. Como se a personalidade dela mudasse constantemente.
Depois vêm a sensação de abandono por ter sido deixado. Um misto de resignação e inconformismo marca a declaração de ter ficado com o coração vazio, a disposição dos espíritos (do passado?) para o assombrar.

You're an accident waiting to happen

You're a piece of glass left there on a beach

Well you tell me things I know you're not supposed to

Then you leave me just out of reach

Acidentes são inevitáveis e nós damos conta deles depois que ocorrerão, não é possível prever um acidente, um acidente evitado não é um acidente pois não ocorreu. Depois de ter sido abandonado é que ele se dá conta, ao olhar para trás, que o relacionar-se com ela, a pessoa que o abandonou, era um acidente a espera para acontecer, como um pedaço de vidro entre as areias da praia. Sabemos que ele pode existir, mas até ocorrer algum acidente com ele não podemos nos preparar. Se ficarmos preocupado com a hipótese de cortar o pé num suposto pedaço de vidro na areia, deixamos de aproveitar a praia.
A pessoa amada, com sua franqueza, contava-lhe coisas que ele não queria ouvir, amores platónicos, traições não materializadas fisicamente ou um novo amor resultante da inconstância. Haverá um limite para o que devamos partilhar com a pessoa amada? Será que devemos dizer coisas pequenas, sem importância, mas que terão um mau impacto na vida do outro?
Depois de tanto mágoa, vem o medo de se envolver novamente, o sentimento de ter sido deixado fora do alcance das outras pessoas, sentindo-se incapaz de se envolver novamente com alguém.

Who's gonna ride your wild horses?

Who's gonna drown in your blue sea?

Who's gonna ride your wild horses?

Who's gonna fall at the foot of thee?

whosgonnaride_japanese.jpg

Talvez como formar de se curar ele questione sobre o próximo relacionamento dela sabendo que a vez dele já passou. Tenta também se convencer que ela nunca encontrará alguém que consiga amá-la por muito tempo, por ela ser muito selvagem, inconstante, imprevisível impedindo assim que haja segurança no relacionamento.
Quem irá se afogar novamente naquele mar azul? (Olhos azuis?)
Quem vai cair aos pés dela? Nota-se que aqui ele se refere a ela com o pronome thee do Inglês arcaico, muitas vezes usado para se referir a Deu. Será um endeusamento? Uma forma de distanciar-se? Ou será uma sugestão de que o amor deles era suposto durar muitos anos até tornar-se arcaico?

Well you stole it

'Cos I needed the cash

And you killed it

'Cos I wanted revenge

Well you lied to me

'Cos I asked you to

Baby, can we still be friends?

Uma análise da vida a dois onde, antes de ser abandonado, ela fazia tudo por ele. As mentiras dela nesta época era porque ele queria ou precisava. Ela mentia para satisfazê-lo, mas será que ela mentia sobre as coisas ilícitas que fazia como as mencionadas no início da estrofe? Ou será que ela mentia com relação ao que sentia com relação a ele?
No final, a tentativa de manter a amizade. Por ainda estar apaixonado ou por ter se dado conta que fora amado enquanto estiverem juntos, que ela fazia tudo por ele e que as coisas aconteceram por responsabilidade dele também.

Oh, the deeper I spin

Oh, the hunter will sin for your ivory skin

Took a drive in the dirty rain

To a place where the wind calls your name

Under the trees the river laughing at you and me

Hallelujah, heavens white rose

The doors you open

I just can't close

A dor da perda foi grande demais. Ele tentou encontrar alento no álcool. Na luxúria buscou como um caçador aquela pele de marfim, não encontrou conforto. Desesperado saiu com seu carro, na chuva, em busca de um lugar onde a pudesse esquecer. No topo de uma montanha, na beira de um penhasco, a esperança de encontrar o fim do seu sofrimento, a surpresa ao lembrar dela, ao ouvir o nome da pessoa amada soprado pelo vento. Toda a natureza conspirando para que ele lembrasse o que a tanto custo tentava esquecer. O rio, na sua sabedoria de quem corre o mundo, ria da sua desgraça. A chuva pára, o sol tenta passar as nuvens. O sentimento de impotência e resignação surge: é impossível fechar as portas que ela abriu. Ele já não é mais o mesmo e não há como voltar atrás.

Don't turn around

Don't turn around again

Don't turn around

Your gypsy heart

Don't turn around

Don't turn around again

Don't turn around

And don't look back

Cansado de sofrer ele não a quer mais de volta. Prefere manter a distância. É impossível cofiar num coração tão inconstante, que não pára muito num mesmo lugar assim como os ciganos. É melhor que ela vá, siga a vida dela e não olhe para trás.
Apesar de tudo. Ele ainda se sente curioso para saber se ela ainda encontrará alguém ou se já encontrou alguém. Pergunta-se se alguém há de domar aquele coração. Ele vasculha os detalhes mais íntimos da relação:

Who's gonna taste your salt water kisses?

Who’s gonna take the place of me?

Who's gonna tame the heart of thee?


Quem irá beijá-la depois de fazerem sexo oral?

Quem irá tomar o meu lugar?

Quem irá domar aquele coração?

Publicado por U2Only às maio 14, 2006 11:52 AM

Comentários

demais essa sua versão, parabéns.

Publicado por: erinaldo em junho 25, 2006 03:36 PM

Adoro essa música e gostei muito da tua interpretação!
Fica bem!

Publicado por: Tanita em julho 1, 2006 04:31 PM

SUBLIME, FANTASTICO, MARAVILHOSO.... NÃO TENHO PALAVRAS. OBRIGADO.

Publicado por: FERNANDO em setembro 17, 2008 09:17 PM

ótima musica adoro ela

Publicado por: everton em outubro 11, 2008 10:40 PM

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