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março 30, 2005
U2 no Publico
Noticia e capa da edição de hoje do jornal Publico:
«U2 Outra vez minimal istas
Em Agosto, Portugal irá ver um espectáculo depurado, com mensagens humanistas e com um alinhamento que privilegia o novo álbum e alguns êxitos de sempre. A Vertigo Tour dos U2 começou segunda-feira em San Diego, nos Estados Unidos. Por Vítor Belanciano,
em San Diego
Começam a desenhar-se os contornos do concerto mais aguardado do ano em Portugal mesmo antes de ter acontecido, tal o fenómeno gerado pela procura de bilhetes. Os U2 começaram segunda-feira em San Diego, Califórnia, a Vertigo Tour que estará em Lisboa a 14 de Agosto, tudo apontando para um concerto cenicamente eficaz, com mensagens humanistas e um alinhamento que privilegia o novo álbum, How To Dismantle An Atomic Bomb, mas que passa em revista toda a carreira.
O facto de o concerto de Lisboa ser num recinto descoberto (Estádio de Alvalade) e não fechado, de menores dimensões, como aconteceu nos EUA, faz com que sejam introduzidas algumas adaptações - ao nível da dimensão do palco, por exemplo. No essencial, porém, aquilo que os quatro irlandeses apresentaram na abertura da digressão, anteontem em San Diego (3h em Lisboa) deverá estar muito próximo do que Portugal vai ver no Verão.

Na véspera do concerto, San Diego parecia alheada do "circo U2", mas quando nos aproximamos da lotada Sports Arena - espécie de Pavilhão Atlântico de dimensão semelhante - deparamos com o espírito de devoção universal ao grupo rock mais conhecido da actualidade. Talvez o único que, hoje, consegue unir diferentes gerações.
Olha-se à volta e lá estão eles - dos 18 aos 50, com a geração dos trintas em maioria. O trânsito é caótico e as filas para entrar gigantes, mas quando americanos, mexicanos e o milhar de jornalistas que veio cobrir o acontecimento se juntam para a festa tudo se esquece.
Os Kings of Leon já cumpriram o papel de banda suporte, as luzes descem um pouco e todas as cabeças rodam na direcção do palco. Vêm todos de negro, como é habitual. Bono de óculos, blusão e calças pretas. The Edge de gorro, calças e t-shirt preta. Adam Clayton de camisa preta com golas vermelhas. O cabelo loiro de Larry Mullen faz contraste com o negro da camisa. A palavra everyone é repetida através do sistema de som, milhares de papelinhos caem do tecto, ouvem-se os primeiros acordes de City of blinding lights do último álbum e o pavilhão vem abaixo.
O palco tem semelhanças com o da anterior digressão, a Elevation Tour, que não passou por Portugal. Em vez de uma passadeira em forma de coração, que rodeia parte da plateia, temos agora um círculo, como se fosse a superfície de uma bala, numa alusão ao título do último álbum. Os músicos são envolvidos por uma espécie de cortina-vídeo fluorescente, criadora de um efeito futurista de grande impacto. Em cima erguem-se seis candeeiros de grandes dimensões e uma tela em forma de ecrã, que acompanha os movimentos individuais de cada um dos músicos.
Ao longo do concerto há variações que alteram esta lógica cénica, mas a cortina de vídeo e o jogo de luzes dominam. A espectacularidade de digressões como Zooropa e Zoo TV foi-se, substituída por uma noção de espectáculo mais simples e minimalista, mas engenhosa e de efeito tão certeiro como no passado.
Em All because of you os candeeiros acendem-se dando ao espaço uma dimensão irreal e em Beautiful day um jogo de luzes deslumbrante de cores sépia impõe-se, enquanto em Sometimes you can"t make it on your own - que o emocionado Bono dedica ao pai, Bob Hewson, que morreu em 2001 - uma figura humana caminha no meio de um arco-íris de cores artificiais.
Alinhamento surpreende
E depois há a música. "Lições de espanhol em San Diego? Não creio", diz Bono, enquanto soletra uno, dos, três, catorze, introduzindo Vertigo e fazendo recordar a energia rock dos primeiros tempos. De seguida diz "vamos regressar ao princípio" e são tocados três temas do primeiro álbum, Boy, servindo para fazer sobressair a guitarra incomparável de The Edge, enquanto o sóbrio Clayton marca o ritmo e Bono aproveita para rastejar pela passadeira pondo em delírio toda a gente.
O alinhamento, apesar de êxitos como New year"s day ou The fly, surpreende. Esperavam-se temas do último álbum, mas não sete. Nas letras das canções dos irlandeses, o pessoal e o universal é muitas vezes indistinto, mas parece ter havido vontade de pegar em canções que remetem para a dimensão humanista em detrimento da fase irónica dos anos 90. Em Love and peace and else, Mullen abandona a bateria para se ocupar da tarola junto à boca do palco, aproveitando Bono o ritmo militar para introduzir Sunday, bloody Sunday, gerando um dos momentos mais esfusiantes, com todos a cantar em uníssono. Em Running to stand still o cantor empunha a harmónica enquanto The Edge se encarrega dos teclados num momento de intimismo, aproveitado para aludir à declaração dos direitos humanos, enquanto passam nos ecrãs alguns dos seus artigos.
"Digam I have a dream", incita Bono na abertura do primeiro encore com In the name of love, ao mesmo tempo que fala de igualdade "na América, em África, em todo o lado" e atrás dos músicos caem bandeiras de países africanos, abrindo espaço para se fazer ouvir um dos temas mais festejados da noite, Where the streets have no name. Em One voltam as alusões a um "nós" e o concerto termina com todos a cantar em coro 40, a canção que não era tocada desde 1993 - quando figurava sempre no final dos concertos-, ajudando a criar a ideia de que, tal como Bono já afirmou, os U2 estão a "reconciliar-se consigo próprios". Assumindo o passado, virando costas às críticas vindas de quem entende o empenhamento humanitário de Bono como mero aproveitamento, desistindo de produções faustosas, mas continuando a saber criar espectáculos aliciantes e funcionais.
Em San Diego os quatro músicos, que já passaram os 40 anos, mostraram que é possível manterem-se juntos e manter acesa a chama do rock.
O PÚBLICO viajou a convite da Universal e da Ritmos & Blues»
Publicado por U2Only às março 30, 2005 02:59 PM